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Japan Brief (Português)
O relatório sobre o aquecimento global realizado pelo painel intergovernamental sobre mudanças climáticas, chega como dura advertência também para o Japão
[Internacional] 2 19,2007
As perspectivas desoladoras e as advertências severas sobre o aquecimento global emitidas pelo painel intergovernamental sobre as mudanças climáticas vieram lembrar ao Japão da necessidade de agilizar os preparativos para as conseqüências previstas com as mudanças climáticas, e de reforçar ações para alcançar o objetivo do Protocolo de Kyoto, que visa a redução das emissões de gases de efeito estufa.
Em seu relatório sobre a avaliação da mudança climática global, emitido em 2 de fevereiro, o quarto desde 1990, o painel afiliado às Nações Unidas chamou o aquecimento global de “inequivocável” e conectou-o à atividade humana com “90% de certeza”, descartando claramente as teorias de que o aquecimento poderia ser explicado por variações naturais. Comparado com a última avaliação do painel, a de 2001, o recente relatório soou mais decidido sobre o impacto que o aquecimento global tem sobre o clima e a sua conexão com a atividade humana.
Entre outras coisas, prevê um aumento térmico de até 6,4°C até o final do século, uma elevação do nível do mar de até 59 cm e padrões climáticos preocupantes, incluindo uma crescente intensidade em tufões e furacões, com secas e chuvas mais severas.
Os efeitos dessas mudanças no Japão teriam um amplo alcance e custo. Conforme o Ministério do Meio-Ambiente, mais de 4 milhões de pessoas vivem em 577 quilômetros quadrados na chamada faixa “zero-metro”, abaixo do nível do mar na maré alta, quando a diferença entre a vazante e a jusante é maior nas Baías de Tóquio, Osaka e Isse. Considera-se que estas zonas poderão ser facilmente afetadas pela água devido a um aumento no nível do mar. Se subir 1 metro, 90% das praias de areia do país ficarão submersas.
No Japão, diz o Nikkei (ex-Nihon Keizai Shinbun), cerca da metade da população está concentrada em cidades viradas para o mar, as quais representam 80% de seu comércio total. Estima-se que o reforço e o remodelamento dos portos e barreiras para conter o aumento no nível do mar requerem um investimento da ordem dos 10 trilhões de ienes. A agricultura também será afetada pelo aumento do nível do mar, pois cerca de 7,5% dos campos de arroz encontram-se em áreas cujo ponto mais alto está a menos de três metros acima do nível do mar, propensas a serem afetadas por tempestades surges, o que implica em colheitas mais pobres.
Enquanto isto, conforme o Protocolo de Kyoto de 1997 que estabelece objetivos a serem alcançados para a redução dos gases de efeito estufa no primeiro período-alvo de 2008-2012, o Japão deverá reduzir as emissões até 2007 a um nível 6% abaixo do de 1990. Contudo, as suas emissões em 2005 apresentaram um aumento de 8,1% em relação a 1990. Esta falha é atribuída ao sentimento doméstico que tende a desconsiderar o Protocolo de Kyoto acreditando, presumivelmente equivocadamente, que afinal, seria ineficaz sem a participação da China e dos EUA, dentre outras coisas.
Os comentários dos meios de comunicação japoneses acerca do relatório foram mais ou menos afirmações comuns sobre a necessidade do governo, da indústria e do povo de encarar o aquecimento global e a responsabilidade humana pelo fenômeno com mais seriedade, e da urgência de se agir. Os jornais criticaram também os EUA e a estrutura defeituosa do Protocolo de Kyoto que perdoa países em desenvolvimento tais como a China e a Índia, grandes emissores de gases de efeito estufa.
“Década perdida” nos esforços japoneses para a redução das emissões
Dentre os principais jornais, o Nikkei foi o mais claro e específico com relação à falha do Japão de reduzir as emissões e sobre o que deve ser feito para recuperar o tempo perdido. Em seu editorial de 5 de fevereiro, que inicia dizendo que “embora o Japão devesse ser o líder, acabou ficando para trás, em uma condição precária nas negociações internacionais sobre o aquecimento global, na véspera da abertura do primeiro período de compromisso do Protocolo de Kyoto, que obriga os países desenvolvidos a reduzirem os gases de efeito estufa.”
Chama a atenção para as ações recentes da União Européia para reduzir ainda mais as emissões e outras nos EUA que, embora não em esfera governamental, parecem ressonar com as européias, o jornal advertiu que o Japão pode ficar atrás de europeus e norte-americanos em arranjos internacionais pós-protocolo de Kyoto na luta contra o aquecimento global. Outro ponto mencionado foi a relutância das empresas japonesas sobre a utilização do comércio de emissões, um sistema que permite que uma empresa venda direitos no mercado de emissões ao alcançar uma redução maior que o limite imposto.
O Nikkei disse que “apesar de liderar o mundo no campo das tecnologias avançadas de conservação e eficiência energética, as empresas japonesas estão se tornando uma presença marginalizada no comércio de direitos de emissões que está em franca expansão”. O jornal reconheceu que “assumir o Protocolo de Kyoto sem os EUA não fazia sentido, e cedo ou tarde, se perceberia que uma estrutura com objetivos numéricos para substituí-lo seria quase impossível, e essa pode ter sido a causa para se ignorar uma política sustentável como o comércio dos direitos de emissões”, e pergunta “se esta não foi uma década perdida”.
Referindo-se às ações para a redução das emissões em nível governamental nos EUA, e indícios de mudanças no Congresso Norte-americano controlado pelos democratas, em seu editorial de 3 de fevereiro, o Asahi Shinbun conclamou o governo japonês e a indústria nacional a observar atentamente os novos desenvolvimentos, argumentando: “devemos trabalhar para diminuir a herança negativa da sociedade industrial, pois é hora de todos começarem a projetar uma sociedade livre de aquecimento”.
Comentando sobre a China e a Índia, grandes emissores de gases de efeito estufa mas livres da obrigação de reduzir as suas emissões por serem países em desenvolvimento, e sobre os EUA que rejeitaram o Protocolo de Kyoto, em seu editorial de 3 de fevereiro o Mainichi Shimbun argumentou que “já que o planeta Terra é indivisível, a redução das emissões por países com um alto índice de emissão é essencial para prevenir o aquecimento global”. O jornal conclamou especialmente a China a se esforçar para reduzir as emissões, e citou “a importância do Japão em fornecer a esse país a cooperação tecnológica necessária”.
Dizendo que o Protocolo de Kyoto apresenta defeitos e pouco progresso, em seu editorial de 4 de fevereiro o Yomiuri Shimbun argumentou: “em primeiro lugar, os EUA embora sejam o maior emissor, não faz parte do Protocolo, e a China e a Índia, cujas emissões estão aumentando com a expansão de suas economias, estão isentas da obrigação de reduzir as emissões. Além disso, as medidas abrangidas referem-se só até 2012 e, portanto, a reformulação do protocolo é urgente”.
(Copyright 2007 Foreign Press Center Japan)